Eclesiastes e 1 Reis – Semana 28
Nesta 28ª semana, a Escritura nos apresenta Salomão no auge do poder e da riqueza, mas também a consciência do tempo e da vaidade de todas as coisas.
E vi a sabedoria habitar meus dias e dar forma ao que minhas mãos erguiam. No trono, minha voz fazia justiça. Na cátedra do reino, tudo me foi entregue: ouro sem conta, prata como pó, mares e nações sob meu domínio (cf. 1Rs 10,14–23; 2Cr 9,13–22). Vieram reis; do sul, uma rainha (cf. 1Rs 10,1–13; 2Cr 9,1–12). Fui exaltado acima de todos antes de mim. Nada neguei aos meus olhos — e fiz do desejo a minha lei (cf. Ecl 2,8–10).
Mas toda abundância carrega em si a tentação de esquecer a Fonte. Do alto do trono, pronunciei e escrevi provérbios que minha própria vida não sustentou (cf. Pr 1–31). Ensinei que o temor é princípio, mas vivi como se o princípio pudesse esperar (cf. Pr 1,7). Eu era o homem a quem nada parecia faltar.
Entre provérbios e riquezas, senti crescer em mim uma quieta sedução: o coração se acostuma ao próprio poder, e a alma esquece a Fonte que a sustenta. O trono se tornou serpente dourada: seduz, enrosca, destila veneno e diz: “Tu és suficiente.” E eu acreditei. A soberba fez do serviço um altar, da glória ilusão, do poder prisão. A fama seguiu a sabedoria, e a sabedoria abriu caminhos — mas os caminhos também pesam, e o tempo cobra.
Nessa travessia, meu coração começou a dividir-se. Aquilo que fora uno diante de Deus foi-se dispersando, lentamente, entre afetos, alianças e desejos (cf. 1Rs 11,1–8). Então o Senhor se indignou contra mim (cf. 1Rs 11,9). Vieram adversários: Hadade, o edomita; Rezom, filho de Eliada (cf. 1Rs 11,14–23). Jeroboão, meu servo (cf. 1Rs 11,26). Eu os via como ameaça ao trono; hoje os reconheço como misericórdia.
Em silêncio provei o que depois escrevi: “Vaidade… tudo é vaidade” (cf. Ecl 1,2). Não na praça, mas sentado onde todos me chamavam bem-aventurado. Aí começou minha quaresma: na alma suspeitando de si.
E a alma, suspeitando de si, desceu comigo às ruas. Pedras e janelas sussurravam temores antigos. Vi o homem trabalhar, alegrar-se, sofrer — justos e ímpios, todos iguais ao pó (cf. Ecl 1,3; 2,23–24; 8,8–14). Na aflição dos rostos marcados e das mãos vazias, vi que abundância também é deserto.
Como no deserto nada sobra senão o essencial, ali aprendi que jejuar não é sentir fome, mas deixar a ilusão escorrer pelos dedos. Um pão repartido pesa mais que um tesouro guardado. O pobre divide e permanece inteiro; eu, rei de tudo, me parti por dentro. A cinza do homem simples falou mais alto que minha coroa: lembra-te. Fui pó antes do trono e pó serei depois dele.
Ali, tocando o chão seco com as mãos, senti o que o trono me fez esquecer: o temor do Senhor é o chão do homem (cf. Ecl 12,13). Sobre este chão encontrei-me: descobri que o homem inteiro não se mede pelo que guarda, mas pelo que oferece com mãos abertas e coração despido.
Do silêncio que me habitava, ergui-me — não para o trono, mas para o altar. Ali começou meu retorno. Subi ao Templo que eu mesmo ergui ao Senhor, entrando não como rei, mas como homem. Perguntei: o que sobra, afinal, de tudo o que o homem constrói? (cf. Ecl 1,3). O céu respondeu com silêncio — e eu respondi ajoelhando-me.
Confessei em voz baixa: servi a dois senhores, buscando ouro com uma mão e sabedoria com a outra, e perdi o que só o Senhor pode dar. Entendi: só o Senhor, inteiro, dá repouso ao que se rende inteiro (cf. Ecl 12,1–7).
Voltei ao trono levando comigo o eco do silêncio e a lição do pó. O trono voltou a ser serviço, não altar. Mas o coração que aprende tarde também colhe consequências. Vejo o que virá depois de mim: Roboão herdar o trono sem herdar o ouvido; o povo pedir alívio e receber dureza; a rigidez gerar ruptura; Jeroboão erguer altares sem fidelidade (cf. 1Rs 12,26–33).
Vejo reis levantar-se e cair (cf. 1Rs 15–16): Baasa, Onri, Acabe. Vejo Judá oscilar. Asa buscar o Senhor e purificar altares (cf. 2Cr 14–15), mas também temer homens mais que Deus (cf. 2Cr 16).
Contudo, quando o poder se corrompe, o céu não se cala. Quando os tronos se fecham, os profetas surgem. Elias falará onde o poder silencia; Eliseu caminhará onde a política não alcança (cf. 1Rs 19,9–18; 2Rs 2). A fidelidade sobreviverá — não nos palácios, mas nas vozes que ardem.
À medida que o futuro se desenha diante de mim, resta-me um gesto definitivo: entregar-me. A Ti, Senhor, entrego o que fui, o que construí e o que deixo; entrego trono, nome, sopro — em Tuas mãos. Fecho meus olhos sobre o mundo que passei e abro-os sobre Ti, onde tudo começa, tudo persiste e tudo repousa.
Eis, aí, o Deus da Eternidade.



























