Os capítulos selecionados de Mateus (Mt 19–21), Marcos (Mc 10), Lucas (Lc 16–19) e João (Jo 11) conduzem o leitor para a etapa final do ministério público de Jesus, quando seu caminho se orienta de maneira cada vez mais clara para Jerusalém, a Cruz e a Ressurreição. Nesse percurso, Jesus aprofunda temas fundamentais do discipulado: matrimônio, desapego dos bens, serviço, misericórdia, oração, conversão e uso responsável das riquezas. Ao mesmo tempo, realiza sinais que revelam sua autoridade e sua identidade, culminando, em João, na ressurreição de Lázaro, um dos acontecimentos que mais explicitamente apontam para Jesus como “a Ressurreição e a Vida”.
Na leitura da Igreja Católica, esses textos mostram que a aproximação da Páscoa de Cristo exige dos discípulos uma decisão cada vez mais profunda. O rico é chamado a abrir as mãos; o pecador, a converter-se; o discípulo, a servir; o cego, a confiar; Zaqueu, a reparar suas injustiças; e Marta, a professar a fé no Filho de Deus. Jesus entra em Jerusalém como Messias, purifica o Templo e denuncia uma religiosidade sem frutos. Assim, os Evangelhos mostram que acolher o Reino significa permitir que a graça transforme concretamente a relação com Deus, com os bens, com o próximo e com a própria vida.
Dados essenciais
Livros: Evangelhos segundo São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João.
Trechos estudados: Mt 19–21; Mc 10; Lc 16–19; Jo 11.
Coleção: Novo Testamento – Evangelhos.
Contexto: etapa final do ministério público de Jesus e progressiva aproximação de Jerusalém e da Paixão.
Cenário: Judeia, caminho para Jerusalém, Jericó, Betânia, Jerusalém e o Templo.
Personagens principais: Jesus, os discípulos, Pedro, Tiago e João, crianças, o jovem rico, cegos, Zaqueu, fariseus, publicanos, Marta, Maria, Lázaro, chefes dos sacerdotes e autoridades religiosas.
Megatemas (palavras-chave)
Discipulado; matrimônio; desapego; riqueza; pobreza; serviço; misericórdia; conversão; oração; Reino de Deus; vida eterna; ressurreição; Jerusalém; Templo; fé; julgamento; Cruz.
Títulos e elementos cristológicos: Cristo, Filho do Homem, Filho de Davi, Senhor, Mestre, Rei, Filho de Deus, Ressurreição e Vida.
Esses capítulos aprofundam a diferença entre a lógica do Reino e a lógica do mundo. Jesus apresenta o matrimônio à luz do projeto criador de Deus, coloca as crianças como modelo de acolhida do Reino, adverte sobre os perigos do apego às riquezas e ensina que a verdadeira grandeza consiste em servir. O caminho do discípulo não é dominado pela busca de prestígio, segurança ou poder, mas pela entrega de si mesmo, à maneira do Filho do Homem, que veio servir e dar a vida.
Na tradição da Igreja Católica, esses textos são fundamentais para a compreensão do matrimônio, da pobreza evangélica, da responsabilidade diante dos bens, da conversão, da oração perseverante e da esperança na ressurreição. João 11 ocupa lugar especial: ao ressuscitar Lázaro, Jesus manifesta antecipadamente sua vitória sobre a morte, embora a ressurreição de Lázaro seja ainda um retorno à vida terrena e diferente da Ressurreição gloriosa de Cristo, que inaugurará uma condição definitiva.
Matrimônio e fidelidade: Jesus remete ao projeto original da criação e reafirma a união do homem e da mulher segundo a vontade de Deus.
Jesus e as crianças: Cristo acolhe os pequenos e declara que o Reino dos Céus pertence aos que se assemelham a eles.
Jovem rico: o desejo de vida eterna encontra um obstáculo no apego aos bens, e Jesus o chama a uma liberdade mais profunda para segui-lo.
Riqueza e Reino: Jesus adverte sobre a dificuldade espiritual provocada pelo apego às riquezas, lembrando que aquilo que é impossível aos homens é possível a Deus.
Recompensa dos discípulos: abandonar tudo por Cristo não significa perda definitiva, mas participação na vida do Reino.
Trabalhadores da vinha: a parábola revela a gratuidade da graça de Deus, que não pode ser reduzida a uma lógica de mérito meramente comercial.
Novo anúncio da Paixão: Jesus prevê sua entrega, condenação, morte e Ressurreição.
Pedido dos filhos de Zebedeu: a busca por lugares de honra é corrigida por Jesus, que ensina que a verdadeira grandeza consiste em servir.
Filho do Homem servidor: Jesus apresenta sua própria missão como serviço e entrega da vida em favor de muitos.
Cura dos cegos: os homens reconhecem Jesus como Filho de Davi e recebem dele a visão.
Entrada em Jerusalém: Jesus entra na cidade como Rei messiânico, de maneira humilde, realizando a expectativa profética.
Purificação do Templo: Cristo denuncia a corrupção do espaço destinado à oração e reafirma sua santidade.
Figueira sem frutos: torna-se sinal de advertência contra uma religião exterior que não produz os frutos esperados por Deus.
Autoridade de Jesus: os chefes religiosos questionam sua autoridade, mas também são confrontados por sua incapacidade de reconhecer a ação de Deus.
Parábola dos dois filhos: Jesus mostra que não basta dizer “sim” a Deus; é necessário realizar concretamente sua vontade.
Vinhateiros homicidas: a parábola denuncia a rejeição dos enviados de Deus e aponta para a rejeição do próprio Filho.
Matrimônio: Jesus reconduz a discussão ao princípio da criação e reafirma a seriedade da aliança conjugal.
Acolhida das crianças: quem não recebe o Reino de Deus como uma criança não pode entrar nele.
Homem rico: Jesus olha para ele com amor e o chama a vender seus bens, dar aos pobres e segui-lo.
Perigo das riquezas: o apego aos bens pode tornar-se obstáculo ao seguimento, embora a salvação permaneça obra da graça de Deus.
Terceiro anúncio da Paixão: Jesus descreve de maneira mais explícita sua futura entrega, morte e Ressurreição.
Tiago e João: os discípulos ainda pensam em lugares de honra, enquanto Jesus os prepara para participar de seu cálice.
Autoridade como serviço: entre os discípulos, a grandeza não deve reproduzir a lógica dominadora dos poderosos.
Serviço do Filho do Homem: Jesus declara que veio não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos.
Bartimeu: o cego clama por Jesus como Filho de Davi, recebe a visão por sua fé e passa a segui-lo pelo caminho.
Administrador infiel: Jesus chama os discípulos a usarem com sabedoria os bens passageiros e a viverem com responsabilidade diante da eternidade.
Deus e o dinheiro: ninguém pode servir simultaneamente a Deus e às riquezas transformadas em senhor da vida.
Rico e Lázaro: a parábola denuncia a indiferença diante do pobre e revela a seriedade das escolhas realizadas nesta vida.
Escândalo, perdão e fé: Jesus orienta seus discípulos sobre a responsabilidade de não levar outros ao pecado, a necessidade de perdoar e o poder de uma fé autêntica.
Serviço humilde: o discípulo realiza sua missão sem transformar o serviço a Deus em motivo de vanglória.
Dez leprosos: todos são curados, mas apenas um retorna para agradecer; Jesus destaca a fé daquele estrangeiro.
Vinda do Reino: Jesus adverte contra a busca de sinais espetaculares e orienta os discípulos para a vigilância.
Viúva persistente: a parábola ensina a perseverança na oração e a confiança na justiça de Deus.
Fariseu e publicano: Deus acolhe a oração humilde daquele que reconhece o próprio pecado, enquanto a autossuficiência religiosa impede a verdadeira justificação.
Jesus e as crianças: o Reino deve ser recebido com confiança e disponibilidade.
Homem rico: o apego aos bens impede que aquele homem responda plenamente ao chamado de Jesus.
Novo anúncio da Paixão: Jesus recorda que em Jerusalém se cumprirá aquilo que foi anunciado pelos Profetas acerca do Filho do Homem.
Cego de Jericó: o homem reconhece Jesus como Filho de Davi, clama por misericórdia e recebe a visão.
Zaqueu: o encontro com Jesus transforma sua relação com os bens e o leva à partilha e à reparação das injustiças cometidas.
“Buscar e salvar o que estava perdido”: a conversão de Zaqueu revela de modo concreto a missão salvadora de Cristo.
Parábola das minas: os dons recebidos exigem responsabilidade e fidelidade enquanto se espera a plena manifestação do Reino.
Entrada em Jerusalém: Jesus é aclamado como Rei enquanto se aproxima da cidade onde realizará sua Páscoa.
Jesus chora sobre Jerusalém: sua lamentação revela o amor por uma cidade que não reconheceu plenamente o tempo da visita de Deus.
Purificação do Templo: Jesus restitui ao Templo sua finalidade de casa de oração.
Doença de Lázaro: Jesus recebe a notícia da enfermidade de seu amigo e anuncia que a situação servirá para a manifestação da glória de Deus.
Retorno à Judeia: apesar do perigo crescente, Jesus decide ir até Betânia para encontrar Marta, Maria e Lázaro.
“Nosso amigo Lázaro dorme”: Jesus fala da morte com a perspectiva daquele que possui autoridade sobre ela.
Encontro com Marta: Marta manifesta sua fé na ressurreição futura, mas Jesus conduz sua esperança para sua própria pessoa.
“Eu sou a Ressurreição e a Vida”: Cristo revela que a vitória sobre a morte não é apenas um acontecimento futuro, mas está inseparavelmente ligada a Ele.
Profissão de fé de Marta: ela reconhece Jesus como Cristo, Filho de Deus, aquele que devia vir ao mundo.
Jesus chora: diante do túmulo, Cristo manifesta verdadeira compaixão e participação na dor humana.
Ressurreição de Lázaro: Jesus ordena que a pedra seja retirada, reza ao Pai e chama Lázaro para fora do túmulo.
“Desatai-o e deixai-o ir”: a libertação de Lázaro torna visível o poder de Cristo sobre a morte.
Fé e oposição: muitos passam a crer em Jesus, enquanto outros levam a notícia às autoridades.
Decisão contra Jesus: o sinal que manifesta o poder de dar a vida também acelera a decisão das autoridades de condená-lo à morte.
Profecia de Caifás: sem compreender plenamente a profundidade de suas palavras, o sumo sacerdote anuncia que Jesus morrerá pelo povo; João amplia o sentido para a reunião dos filhos de Deus dispersos.
O tema das riquezas atravessa de maneira especial essas leituras. O jovem rico deseja a vida eterna, mas não consegue abandonar aquilo que possui; o rico da parábola de Lucas permanece indiferente ao sofrimento de Lázaro; Zaqueu, ao contrário, permite que o encontro com Jesus transforme concretamente sua relação com o dinheiro. A Escritura não apresenta os bens materiais como maus em si mesmos, mas adverte contra sua transformação em ídolos e contra a indiferença diante das necessidades do próximo.
Na tradição católica, a pobreza evangélica é antes de tudo uma liberdade interior que reconhece Deus como verdadeiro bem e considera os bens terrenos dons a serem administrados com justiça, gratidão e solidariedade. Para alguns, o chamado de Cristo pode assumir uma forma radical de renúncia; para todos, implica desapego, generosidade e responsabilidade diante dos pobres.
Mateus 20 e Marcos 10 revelam que os próprios Apóstolos ainda precisam ser purificados de uma compreensão mundana da autoridade. Diante da busca pelos primeiros lugares, Jesus apresenta um princípio fundamental do Reino: quem quiser tornar-se grande deve servir.
O fundamento desse ensinamento é o próprio Cristo. O Filho do Homem não exige dos discípulos algo que Ele não viva: sua missão é serviço e entrega. A autoridade cristã, portanto, não encontra seu modelo na dominação, mas em Jesus que coloca a própria vida a serviço da salvação dos outros.
Lucas 16–19 apresenta diversos contrastes entre pessoas que se fecham e pessoas que se abrem à graça. O rico ignora Lázaro; o fariseu confia em sua própria justiça; o homem rico não consegue abandonar seus bens. Em sentido oposto, o publicano pede misericórdia, o leproso retorna para agradecer, o cego clama com fé e Zaqueu acolhe Jesus com alegria.
A conversão bíblica não permanece apenas no sentimento. Em Zaqueu, ela produz partilha e reparação: aquilo que foi transformado no coração torna-se visível nas escolhas concretas. Por isso Jesus proclama que a salvação entrou naquela casa e resume sua própria missão: “o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”.
A ressurreição de Lázaro constitui o grande sinal de João 11. Diante da morte, Jesus não oferece apenas uma explicação sobre a vida futura. Ele declara: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”. A esperança cristã na ressurreição está, portanto, fundamentada na própria pessoa de Cristo.
É importante distinguir o retorno de Lázaro à vida da Ressurreição de Jesus. Lázaro retorna à existência terrena e ainda morrerá novamente; Cristo, ao ressuscitar, entra definitivamente na vida gloriosa que não está mais sujeita à morte. O sinal de Betânia antecipa e prepara a revelação plena da vitória pascal.
Mateus 21 e Lucas 19 conduzem Jesus até Jerusalém. Sua entrada humilde manifesta sua identidade messiânica, mas também corrige expectativas de um rei dominador. Cristo entra não como conquistador militar, mas como Rei que caminha livremente para a entrega de sua vida.
A purificação do Templo revela sua autoridade e denuncia uma religiosidade que perdeu de vista sua finalidade. A partir desse momento, o confronto com as autoridades torna-se ainda mais intenso. Os acontecimentos conduzem diretamente para a Paixão: o Messias chegou à cidade santa, e a resposta à sua presença se tornará decisiva.
Jesus, Filho do Homem servidor: sua autoridade manifesta-se na entrega e no serviço, culminando no dom da própria vida.
Jesus, Filho de Davi: os cegos e a multidão reconhecem nele o Messias esperado por Israel.
Jesus, Rei humilde: sua entrada em Jerusalém revela uma realeza que não se fundamenta na força, mas na fidelidade ao plano do Pai.
Jesus, Ressurreição e Vida: a ressurreição de Lázaro manifesta sua autoridade sobre a morte e prepara a compreensão de sua própria Páscoa.
Desapego: o discípulo é chamado a possuir os bens sem permitir que os bens possuam seu coração.
Misericórdia: reconhecer o pobre, acolher o pecador e reparar a injustiça são frutos concretos do encontro com Deus.
Humildade: o publicano mostra que a verdadeira relação com Deus começa pelo reconhecimento da própria necessidade de misericórdia.
Conversão: Zaqueu revela que a graça acolhida transforma escolhas, relações e a maneira de administrar os bens.
Fé: Bartimeu, o cego de Jericó e Marta mostram diferentes formas de confiança que reconhecem em Jesus a presença salvadora de Deus.
Esperança: diante da morte, o discípulo é chamado a confiar naquele que é a Ressurreição e a Vida.
Leitura comparativa: observar os paralelos entre Mateus 19–20 e Marcos 10 sobre matrimônio, crianças, riquezas, Paixão, serviço e cura dos cegos.
Leitura cristológica: acompanhar como o caminho para Jerusalém revela Jesus como Filho do Homem servidor, Filho de Davi, Rei messiânico e Senhor da vida.
Leitura espiritual: perceber quais apegos dificultam o seguimento de Cristo e como a graça transforma a vida daqueles que realmente o acolhem.
Leitura social: observar a insistência de Lucas na responsabilidade diante dos pobres, no uso dos bens e na necessidade de reparar as injustiças.
Leitura eclesial: compreender que a autoridade entre os discípulos deve reproduzir o serviço de Cristo e nunca a lógica da dominação.
Leitura pascal: contemplar a ressurreição de Lázaro e a entrada em Jerusalém como acontecimentos que conduzem diretamente à Paixão, morte e Ressurreição de Jesus.
Leituras da semana: Mt 19–21; Mc 10; Lc 16–19; Jo 11.
Materiais: paralelos sobre o jovem rico, o serviço e os cegos em Mateus, Marcos e Lucas; parábolas sobre riqueza e oração em Lucas; conversão de Zaqueu; entrada em Jerusalém; ressurreição de Lázaro; Catecismo da Igreja Católica sobre o matrimônio, a pobreza de coração, o uso dos bens, a misericórdia, a oração, a ressurreição dos mortos e a missão de Cristo.
Objetivo: compreender que, à medida que Jesus se aproxima de Jerusalém e de sua Páscoa, Ele chama seus discípulos a uma liberdade cada vez maior diante dos bens, do poder e do próprio ego, revelando que a verdadeira vida nasce do serviço, da misericórdia, da conversão e da fé naquele que é a Ressurreição e a Vida.
Em Mateus 19, Jesus conduz seus discípulos de volta ao projeto original de Deus para o matrimônio: “o que Deus uniu, o homem não separe” (cf. Mt 19,1-9). Diante das discussões sobre o divórcio, Cristo reafirma a união estável e indissolúvel entre o homem e a mulher. Logo depois, apresenta também a continência voluntária por causa do Reino dos Céus, mostrando que alguns são chamados a renunciar ao matrimônio para se consagrarem inteiramente ao serviço de Deus. Matrimonio e virgindade aparecem, assim, como caminhos distintos de resposta ao chamado divino.
Jesus acolhe e abençoa as crianças, ensinando que o Reino pertence aos que o recebem com semelhante abertura e confiança. Em seguida, o encontro com o jovem rico coloca em evidência o perigo do apego aos bens. O homem deseja a vida eterna e observa os mandamentos, mas entristece-se quando Cristo o chama a vender o que possui, dar aos pobres e segui-lo. A passagem mostra que o problema não está simplesmente na posse de bens, mas no coração que se torna incapaz de abandoná-los por causa de Deus. Aos discípulos que deixaram tudo, Jesus promete uma recompensa que ultrapassa aquilo que foi renunciado (cf. Mt 19,13-30).
A parábola dos trabalhadores enviados à vinha desenvolve o tema da gratuidade da graça (cf. Mt 20,1-16). Alguns começam o trabalho desde a manhã; outros são chamados apenas no final do dia, mas todos recebem o salário prometido. O material apresenta, com Orígenes, as diferentes horas como imagem dos diversos momentos da vida em que uma pessoa pode voltar-se para Deus: seja cedo ou tarde, aquele que responde ao chamado recebe gratuitamente a vida eterna. A bondade de Deus não pode ser medida segundo os cálculos humanos.
Enquanto se aproxima de Jerusalém, Jesus anuncia pela terceira vez sua Paixão, Morte e Ressurreição. Nesse contexto, o pedido feito em favor de Tiago e João revela que os discípulos ainda pensam em grandeza segundo critérios humanos. Cristo redefine a autoridade cristã: o maior deve tornar-se servidor, pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos (cf. Mt 20,17-28). A cura dos cegos de Jericó encerra o caminho mostrando aqueles que reconhecem em Jesus o “Filho de Davi” e pedem para voltar a ver.
Mateus 21 abre os acontecimentos da Semana da Paixão com a entrada messiânica em Jerusalém. Jesus entra na cidade montado em um jumentinho e é recebido pelas multidões com o grito “Hosana”, expressão hebraica de súplica pela salvação. O material aproxima essa entrada da coroação de Salomão: ambos são filhos de Davi, entram em Jerusalém montados em um animal associado à realeza e são recebidos por uma multidão. Jesus aparece, porém, como o Rei messiânico que vem de maneira humilde.
A expulsão dos vendedores do Templo, a figueira estéril e as controvérsias seguintes assumem caráter profético. A figueira sem frutos simboliza a esterilidade daqueles que receberam a Aliança, mas não produziram os frutos esperados. Na parábola dos dois filhos, Jesus contrapõe a profissão exterior de obediência à conversão efetiva. Já na parábola dos vinhateiros homicidas, Deus é apresentado como o proprietário da vinha, os líderes infiéis como os vinhateiros, os profetas como os servos perseguidos e Jesus como o Filho enviado por último. A rejeição do Filho anuncia o julgamento sobre a infidelidade e a passagem para uma nova etapa da História da Salvação.
Marcos 10 retoma o ensinamento sobre a indissolubilidade do matrimônio. Jesus remete ao livro do Gênesis para recordar que o matrimônio pertence ao projeto criador de Deus: homem e mulher tornam-se uma só carne, e aquilo que Deus uniu não deve ser separado (cf. Mc 10,1-12). Logo em seguida, Cristo acolhe as crianças, abraça-as e as abençoa, apresentando nelas a atitude necessária para receber o Reino de Deus.
O encontro com o homem rico mostra novamente a exigência do discipulado. Ele deseja a vida eterna, mas recua diante do chamado a vender seus bens, dar aos pobres e seguir Jesus. Cristo adverte então sobre o perigo espiritual das riquezas e recorda que a salvação não é conquista puramente humana: “para Deus tudo é possível” (Mc 10,27). Aos discípulos que abandonaram tudo por causa dele e do Evangelho, promete uma recompensa abundante, acompanhada também das provações próprias do seguimento.
Enquanto sobem para Jerusalém, Jesus anuncia pela terceira vez que será entregue, condenado, morto e, depois de três dias, ressuscitará. Mesmo assim, Tiago e João pedem lugares de honra. A resposta de Cristo revela o coração da autoridade cristã: quem quiser ser grande deve servir, e quem quiser ser o primeiro deve tornar-se servo de todos. O próprio Jesus oferece o modelo definitivo: “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45).
O capítulo termina com Bartimeu, o cego de Jericó. Chamando Jesus de “Filho de Davi”, ele persevera apesar daqueles que tentam silenciá-lo. Sua cura física torna-se imagem da abertura espiritual que o discípulo necessita para reconhecer o Messias e segui-lo pelo caminho. São Beda, conforme apresentado no material, vê em Bartimeu também uma figura das nações chamadas a abandonar a cegueira espiritual, deixar para trás os antigos hábitos e seguir Cristo.
Lucas 16 começa com a parábola do administrador infiel. Jesus não elogia sua desonestidade, mas sua capacidade de perceber a urgência da situação e preparar-se para o futuro. Da mesma forma, o discípulo deve administrar os bens deste mundo tendo em vista a vida eterna. O dinheiro não pode transformar-se em senhor do coração: não se pode servir a Deus e ao dinheiro. O material recorda que o termo associado a “dinheiro”, mammon, pode assumir o sentido de riqueza personificada, tornando-se uma forma de idolatria quando ocupa o lugar devido a Deus.
Jesus denuncia a avareza dos fariseus, reafirma a permanência da Palavra de Deus e recorda a indissolubilidade do matrimônio. A parábola do rico e do pobre Lázaro encerra o capítulo mostrando a seriedade das escolhas presentes. O rico vive fechado em sua abundância enquanto Lázaro permanece abandonado à sua porta; depois da morte, suas situações são invertidas. A narrativa chama à conversão enquanto ainda há tempo e mostra que a revelação de Deus já oferece luz suficiente para orientar a vida.
Lucas 17 reúne ensinamentos sobre a vida do discípulo: evitar o escândalo, praticar a correção fraterna, perdoar aquele que se arrepende, pedir o crescimento da fé e servir com humildade. O verdadeiro servo não transforma sua obediência em motivo de orgulho, mas reconhece que apenas cumpriu o que devia. A cura dos dez leprosos acrescenta o tema da gratidão: todos são purificados, mas apenas um retorna para agradecer a Jesus, e justamente ele ouve que sua fé o salvou.
O ensinamento sobre a vinda do Reino recorda que sua presença não pode ser reduzida a sinais exteriores calculáveis. Ao mesmo tempo, Jesus fala do Dia do Filho do Homem, chamando seus discípulos à vigilância. A recordação dos dias de Noé e de Ló mostra que a vida cotidiana pode continuar aparentemente normal até o momento decisivo do juízo. O discípulo deve permanecer preparado e não voltar o coração para aquilo que deixou para trás.
Lucas 18 apresenta duas grandes lições sobre a oração. A parábola da viúva insistente ensina a perseverança: é necessário rezar sempre sem desanimar. A parábola do fariseu e do publicano ensina a humildade: enquanto o fariseu exalta suas próprias obras, o publicano apenas reconhece seu pecado e suplica misericórdia — “Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!”. Jesus mostra que é este último quem volta para casa justificado.
Em seguida, Cristo acolhe as crianças, encontra o rico notável e volta a ensinar sobre o perigo das riquezas e o valor do desapego. Pela terceira vez, anuncia sua Paixão e Ressurreição como cumprimento daquilo que os Profetas haviam anunciado sobre o Filho do Homem. O cego de Jericó, apesar da resistência da multidão, persevera em sua súplica e recebe de Jesus a cura: sua fé torna-se exemplo de uma oração que não permite que os obstáculos impeçam a aproximação de Cristo.
Lucas 19 apresenta a conversão de Zaqueu. O chefe dos publicanos deseja ver Jesus, mas é Cristo quem toma a iniciativa de entrar em sua casa. O encontro produz frutos concretos: Zaqueu decide repartir seus bens e reparar as injustiças cometidas. A salvação que entra em sua casa transforma sua relação com as riquezas e confirma a missão do Filho do Homem de buscar e salvar o que estava perdido.
A parábola das minas insiste na responsabilidade diante dos dons recebidos. O servo fiel não deve simplesmente conservar aquilo que recebeu, mas fazê-lo frutificar enquanto espera o retorno do senhor. Pouco depois, Jesus entra solenemente em Jerusalém ao som das aclamações dos discípulos. As palavras “Bendito aquele que vem em nome do Senhor” retomam o Salmo 118 e apresentam sua chegada em chave messiânica.
Ao aproximar-se da cidade, porém, Jesus chora sobre Jerusalém. O material relaciona sua profecia à destruição da cidade pelos romanos no ano 70 d.C., interpretada como consequência de sua recusa em reconhecer o tempo da visita de Deus. Depois, Cristo purifica o Templo e passa a ensinar diariamente nele, entrando na etapa final de seu ministério público em Jerusalém.
João 11 apresenta um dos sinais mais decisivos do quarto Evangelho: a ressurreição de Lázaro. O relato começa ressaltando o amor de Jesus por Marta, Maria e Lázaro. Mesmo sabendo da doença do amigo, Cristo permite que os acontecimentos avancem até sua morte para que, por meio do sinal, a glória de Deus seja manifestada.
O material patrístico apresenta os quatro dias de Lázaro no túmulo como imagem de quatro etapas da morte espiritual: o pecado original, a violação da lei natural, a transgressão da Lei escrita de Moisés e, finalmente, o desprezo do Evangelho da graça. A situação aparentemente irreversível de Lázaro manifesta, desse modo, a profundidade da condição humana ferida pelo pecado e prepara a manifestação do poder salvador de Cristo.
Diante de Marta, Jesus conduz a fé para além da esperança em uma ressurreição apenas futura. Aquele que está diante dela é o próprio Senhor da vida. O sinal realizado no túmulo de Lázaro torna-se uma antecipação da vitória pascal: Cristo chama o morto para fora e mostra que possui poder sobre aquilo que parece definitivamente perdido. A ressurreição de Lázaro, porém, ainda é um retorno à vida terrena e aponta para algo maior: a própria Ressurreição de Jesus.
O sinal provoca uma decisão. Muitos passam a crer em Cristo, enquanto outros levam a notícia às autoridades. A partir desse momento, os chefes intensificam o plano para matar Jesus (cf. Jo 11,45-54). Assim, paradoxalmente, aquele que devolve a vida a Lázaro aproxima-se de sua própria morte. João conduz o leitor para o mistério pascal: o dom da vida oferecido por Cristo passa pela entrega de sua própria vida, preparando os acontecimentos que culminarão na Cruz e na Ressurreição.
A história do cristianismo começa com um chamado. Antes da formação das primeiras comunidades e da própria constituição do colégio apostólico, homens e mulheres foram convidados por Jesus a segui-lo, permanecer com Ele e aprender de sua vida e de seus ensinamentos. Esses seguidores receberam nos Evangelhos o nome de discípulos.
O discipulado ocupa lugar central no Novo Testamento. Jesus não veio apenas transmitir uma doutrina, mas formar pessoas capazes de viver sua Palavra e prolongar sua missão. Por isso, ser discípulo não significa somente adquirir conhecimentos, mas entrar em comunhão pessoal com Cristo e permitir que o encontro com Ele transforme toda a existência.
O grupo dos discípulos era muito mais amplo que o dos Doze Apóstolos. Incluía os setenta e dois enviados em missão, numerosas mulheres e muitos outros homens e mulheres que acolheram a Palavra. Assim, todo Apóstolo é discípulo, mas nem todo discípulo é Apóstolo. O discipulado constitui a vocação comum daqueles que seguem Jesus.
A palavra “discípulo” traduz o termo grego mathētēs, que significa aluno, aprendiz ou seguidor. No sentido bíblico, porém, seu significado é mais profundo: o discípulo compartilha a vida do mestre, assimila seus valores e procura conformar sua existência ao ensinamento recebido.
Na tradição judaica, os discípulos normalmente procuravam um mestre. Nos Evangelhos aparece uma novidade fundamental: é Jesus quem toma a iniciativa de chamar. Aos primeiros discípulos Ele diz: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mt 4,19).
O discipulado cristão nasce, portanto, de um chamado que precede a resposta humana. Os primeiros discípulos deixam suas redes e seguem Jesus, manifestando a radicalidade dessa vocação: colocar Cristo no centro da própria vida.
Jesus nunca escondeu as exigências do discipulado. O chamado cristão envolve uma decisão concreta: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9,23).
A renúncia não significa desprezar os bens da criação ou abandonar as legítimas responsabilidades humanas, mas reconhecer que nenhuma realidade pode ocupar o lugar que pertence a Deus.
Os Evangelhos mostram que alguns discípulos abandonaram Jesus diante da exigência de suas palavras (cf. Jo 6,60-66). O verdadeiro discipulado exige, portanto, uma adesão livre, perseverante e continuamente sustentada pela graça de Deus.
O grupo que acompanhava Jesus durante sua vida pública era muito mais amplo do que os Doze. Numerosos homens e mulheres ouviam seus ensinamentos, presenciavam seus sinais e participavam de sua missão.
Entre essa comunidade maior, os Doze Apóstolos receberam uma vocação específica. Contudo, continuaram sendo discípulos. O apostolado aparece, assim, como uma missão particular dentro da realidade mais ampla do discipulado.
O envio dos setenta e dois discípulos confirma que a evangelização não estava reservada exclusivamente aos Doze. Jesus os enviou dois a dois para anunciar a proximidade do Reino e preparar sua chegada às cidades (cf. Lc 10,1).
Também tiveram papel significativo as mulheres discípulas. Maria Madalena, Joana, Susana e outras acompanhavam Jesus e colaboravam com sua missão (cf. Lc 8,1-3). Muitas permaneceram fiéis durante a Paixão, estiveram junto ao túmulo e tornaram-se testemunhas da Ressurreição.
O ministério público de Jesus constituiu, portanto, uma verdadeira escola de discipulado: seus seguidores eram formados pela convivência com Cristo, pela escuta de sua Palavra e pela observação de suas atitudes.
Embora relacionados, os termos “discípulo” e “Apóstolo” não possuem exatamente o mesmo significado no Novo Testamento. O discípulo é aquele que aprende, segue e procura conformar sua vida à de Jesus. O Apóstolo, palavra derivada do grego apóstolos, é aquele que é enviado.
O próprio Evangelho apresenta essa distinção: Jesus “chamou os discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos” (Lc 6,13). Os Doze foram primeiramente discípulos, mas receberam uma escolha e uma missão particulares.
A escolha de doze homens possuía ainda um significado simbólico. Assim como Israel estava organizado a partir das doze tribos, os Doze representavam o novo povo de Deus e receberam participação singular na fundação da Igreja.
O apostolado fundacional estava ligado ao chamado de Cristo, ao conhecimento de sua missão e ao testemunho de sua Ressurreição. Por isso, quando foi necessário substituir Judas Iscariotes, buscou-se alguém que tivesse acompanhado Jesus e pudesse tornar-se testemunha do Ressuscitado (cf. At 1,21-22).
São Paulo constitui um caso particular. Ele não acompanhou Jesus durante o ministério público, mas encontrou o Cristo ressuscitado e recebeu diretamente dele o chamado e o envio para evangelizar os gentios. Por isso afirma que seu apostolado procede de Jesus Cristo e não de iniciativa humana (cf. 1Cor 9,1; Gl 1,1).
O Novo Testamento também emprega ocasionalmente a palavra “apóstolo” em sentido mais amplo para alguns missionários, como Barnabé (cf. At 14,14). Esse uso, porém, não os identifica necessariamente com os Doze nem lhes confere a mesma função fundacional.
A missão fundacional dos Apóstolos é única e irrepetível. Por isso, ninguém hoje pode se autoproclamar Apóstolo no mesmo sentido dos Doze ou de São Paulo. Os bispos são sucessores dos Apóstolos porque continuam, mediante a sucessão apostólica, sua missão de ensinar, santificar e governar a Igreja, mas não são novas testemunhas fundacionais da Ressurreição.
Todos os batizados, contudo, participam do apostolado da Igreja e são chamados a testemunhar Cristo. Alguns santos também receberam honorificamente o título de “apóstolo” por sua extraordinária atividade evangelizadora, sem que isso signifique pertencimento ao colégio apostólico fundacional.
A Ressurreição de Cristo e Pentecostes inauguraram uma nova etapa para os discípulos. Antes da Paixão, eles frequentemente demonstravam medo e dificuldade para compreender a missão de Jesus. Depois de receberem o Espírito Santo, tornaram-se testemunhas corajosas do Evangelho.
Jesus havia prometido: “Recebereis a força do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas” (At 1,8). A partir de Pentecostes, os discípulos passaram a constituir visivelmente a Igreja nascente, perseverando na doutrina apostólica, na comunhão, na fração do pão e nas orações (cf. At 2,42).
A expansão do cristianismo não foi obra apenas dos Doze. Muitos outros discípulos participaram da missão, entre eles Barnabé, Marcos, Lucas, Timóteo, Tito, Silas, Priscila e Áquila. A Igreja primitiva aparece, assim, como uma comunidade inteira de discípulos missionários conduzidos pelo Espírito Santo.
Desde os tempos apostólicos, a Igreja reconhece o discipulado como vocação fundamental de todo cristão. Pelo Batismo, os fiéis são incorporados a Cristo e chamados à santidade, ao apostolado e à participação em sua missão.
O chamado de Jesus não se limita a um pequeno grupo. Sua palavra permanece dirigida a todos aqueles que desejam segui-lo. Por isso, o discipulado e a missão não podem ser separados: quem encontra Cristo é chamado também a testemunhá-lo.
Assim como os primeiros seguidores aprenderam diretamente do Mestre, os cristãos de cada época são chamados a crescer continuamente na amizade com Cristo e no compromisso com seu Reino.
O Novo Testamento apresenta uma ampla comunidade de discípulos, muito além do colégio dos Doze. Alguns conheceram Jesus durante sua vida pública; outros se tornaram discípulos depois da Ressurreição, mediante a pregação apostólica, o Batismo e a participação na Igreja.
O material também recorda os setenta e dois discípulos, a multidão dos seguidores de Jesus, aqueles que o abandonaram diante de ensinamentos exigentes e os cerca de cento e vinte irmãos reunidos em Jerusalém após a Ascensão.
Os Atos dos Apóstolos e outros escritos do Novo Testamento mencionam numerosos discípulos que participaram da expansão da Igreja:
Essas figuras mostram que a evangelização da Igreja nascente foi realizada por uma grande rede de homens e mulheres que colocaram seus dons, suas casas e suas vidas a serviço do Evangelho.
O discipulado é uma das realidades fundamentais do Novo Testamento. Antes de serem missionários, líderes ou evangelizadores, os primeiros cristãos foram chamados por Jesus a segui-lo, permanecer com Ele e aprender de seu exemplo.
Esse chamado nunca esteve limitado aos Doze. Em torno de Cristo formou-se uma comunidade ampla de homens e mulheres, conhecidos e anônimos, que receberam sua Palavra e participaram de sua missão. Após a Ressurreição e Pentecostes, outros tantos se tornaram discípulos através da pregação apostólica e da vida da Igreja.
Ser discípulo significa percorrer um caminho de conversão, comunhão e missão. A vida cristã não se reduz à adesão intelectual a uma doutrina, mas consiste numa relação viva com Cristo ressuscitado, capaz de transformar toda a existência.
Por isso, o discipulado permanece a vocação comum de todos os batizados. Em cada geração, o mesmo chamado dirigido aos primeiros seguidores continua ressoando na Igreja: “Segue-me” (Mt 9,9). Na resposta a esse chamado encontram-se a origem da santidade, o impulso da missão e o fundamento da vida cristã.
Os Apóstolos foram chamados pessoalmente por Jesus para permanecer com Ele, aprender de sua palavra e de sua vida e, depois, serem enviados em missão. André, Pedro, Felipe e Bartolomeu apresentam histórias e personalidades diferentes, mas todos são alcançados pelo mesmo chamado: seguir Cristo e participar de sua missão. A palavra de Jesus — “Vinde após mim, e eu farei de vós pescadores de homens” (Mt 4,19) — expressa esse movimento fundamental da vocação apostólica: encontrar o Senhor, deixar-se transformar por Ele e conduzir outros ao seu encontro.
André era natural de Betsaida, irmão de Simão Pedro e pescador no Mar da Galileia. Antes de seguir Jesus, havia sido discípulo de João Batista. Quando ouviu João apontar para Cristo e proclamar “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1,36), André passou a seguir Jesus e permaneceu com Ele. Seu discipulado nasce, portanto, de um encontro pessoal com aquele que João Batista anunciava.
Nos Evangelhos, André aparece especialmente como alguém que aproxima outras pessoas de Cristo. Depois de encontrar Jesus, procura seu irmão Simão e o conduz até Ele (cf. Jo 1,40-42). Também aparece na multiplicação dos pães e no episódio em que alguns gregos desejam encontrar Jesus (cf. Jo 6,1-15; 12,20-22). Sua vida apostólica revela uma característica essencial da evangelização: quem encontra verdadeiramente Cristo é chamado a ajudar outros a encontrá-lo. Segundo a tradição apresentada no material, André evangelizou a região da Acaia e sofreu o martírio em Patras.
Simão Pedro era pescador, casado e residente em Cafarnaum. Seu caminho com Jesus é marcado ao mesmo tempo pela grandeza da fé e pela experiência da própria fragilidade. Ele deixa as redes para seguir o Mestre (cf. Mt 4,18-20), aprende a confiar em sua palavra (cf. Lc 5,1-11) e vive momentos decisivos da missão de Cristo.
Em Cesareia de Filipe, Pedro professa: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus então lhe confere uma missão singular, associando-o à imagem da pedra e entregando-lhe as chaves do Reino dos Céus (cf. Mt 16,16-19). Essa eleição, porém, não elimina suas fraquezas: Pedro chega a negar Jesus durante a Paixão (cf. Lc 22,54-62). Depois da Ressurreição, é novamente chamado ao amor e à missão quando Cristo lhe confia o cuidado de seu rebanho (cf. Jo 21,15-19).
Nos Atos dos Apóstolos, Pedro ocupa lugar de liderança na comunidade cristã nascente e anuncia publicamente Cristo ressuscitado no dia de Pentecostes (cf. At 2,14-41). A tradição da Igreja reconhece nele uma missão particular entre os Apóstolos e conserva a memória de seu martírio em Roma. Sua história mostra que Cristo não escolhe apenas pessoas já prontas: Ele chama, forma, corrige, perdoa e transforma aqueles que envia.
Felipe também era natural de Betsaida. Seu chamado aparece de maneira direta no Evangelho de João: Jesus o encontra e lhe diz “Segue-me” (Jo 1,43). Logo depois, Felipe procura Natanael e o convida a conhecer Jesus com uma expressão simples e profundamente missionária: “Vem e vê” (Jo 1,46). O discípulo chamado por Cristo torna-se imediatamente alguém que chama outro para o encontro com o Senhor.
Felipe aparece também em momentos nos quais sua fé é conduzida a uma compreensão mais profunda. Na multiplicação dos pães, Jesus o questiona diante da necessidade da multidão (cf. Jo 6,5-7). Na Última Ceia, Felipe pede: “Senhor, mostra-nos o Pai”, e recebe de Jesus uma revelação sobre sua profunda união com o Pai (cf. Jo 14,8-11). Sua trajetória mostra que seguir Cristo envolve também um processo de aprendizagem: o discípulo caminha, pergunta, busca compreender e é progressivamente conduzido ao mistério de Jesus.
Segundo a tradição apresentada no material, Felipe exerceu sua missão evangelizadora na região da Frígia, na Ásia Menor, e terminou sua vida pelo martírio. Seu exemplo recorda que a fé não elimina a busca pela compreensão, mas orienta essa busca para um conhecimento cada vez mais profundo de Cristo.
Bartolomeu é apresentado no material em relação com Natanael, personagem do Evangelho de João, natural de Caná da Galileia. Ao receber de Felipe o anúncio de que haviam encontrado aquele sobre quem escreveram Moisés e os Profetas, Natanael reage inicialmente com desconfiança: “De Nazaré pode sair algo de bom?”. Felipe não tenta vencer sua resistência por longas explicações, mas simplesmente o convida: “Vem e vê” (cf. Jo 1,45-46).
Quando Natanael se aproxima, Jesus o reconhece como um verdadeiro israelita, sem falsidade, e revela conhecê-lo antes mesmo daquele encontro: “Antes que Felipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, eu te vi” (Jo 1,48). Surpreendido, Natanael responde com uma profissão de fé: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (Jo 1,49).
Esse encontro revela a importância de apresentar-se diante de Cristo com sinceridade. Natanael começa com uma dúvida, mas não se fecha ao convite; aceita aproximar-se e permite que o encontro com Jesus transforme sua compreensão. Segundo a tradição apresentada no material, Bartolomeu exerceu sua missão evangelizadora em regiões como a Índia e a Armênia e entregou a vida no martírio.
André, Pedro, Felipe e Bartolomeu possuem histórias diferentes. André aparece como aquele que conduz pessoas a Jesus; Pedro vive um caminho de chamado, fragilidade, conversão e missão; Felipe representa o discípulo que procura compreender e convida outros a fazer a experiência de Cristo; Bartolomeu manifesta a sinceridade de quem passa da dúvida à profissão de fé.
Apesar dessas diferenças, todos foram formados na mesma escola de Jesus: a escola do amor, da verdade e do serviço. A vocação apostólica não apaga a personalidade de cada discípulo, mas coloca seus dons, suas limitações e sua própria história a serviço da missão recebida de Cristo.
A experiência desses Apóstolos mostra que todo discipulado começa com um encontro e se desenvolve numa resposta. Jesus chama pessoas concretas, com qualidades, dúvidas e fraquezas, e as transforma progressivamente para a missão. Seguir Cristo não significa já possuir todas as respostas, mas permanecer com Ele e permitir que sua graça forme o coração.
O testemunho dos Apóstolos também recorda que a fé recebida tende naturalmente à missão. André leva Pedro a Jesus; Felipe chama Natanael; Pedro, depois de experimentar sua própria fraqueza e o perdão do Senhor, torna-se testemunha pública da Ressurreição. Assim também o cristão é chamado não apenas a conhecer Cristo, mas a ajudar outros a aproximarem-se dele, fazendo da própria vida um convite simples e verdadeiro: “Vem e vê”.
Artista: Anita Malfatti
Data: 1928
Técnica: Óleo sobre tela
Localização: Museu de Arte Sacra de São Paulo
Referência bíblica: João 11,38-44
A Ressurreição de Lázaro revela uma dimensão menos conhecida da produção de Anita Malfatti, uma das grandes artistas do Modernismo brasileiro: sua dedicação à arte sacra. Concluída em 1928, durante seu período de estudos na Europa, a pintura possui mais de dois metros de altura e foi desenvolvida ao longo de vários anos. Os numerosos estudos encontrados em seus cadernos mostram a importância que essa composição assumiu em sua trajetória artística.
Nesta obra, Anita se afasta do expressionismo mais intenso de sua produção inicial e busca uma linguagem marcada por maior equilíbrio e monumentalidade. As figuras recordam a pintura religiosa italiana dos séculos XIV e XV, especialmente artistas como Giotto e Fra Angelico, estudados por Anita durante sua passagem pela Itália. O resultado é uma interpretação moderna do episódio de João 11,38-44, sem perder a dimensão contemplativa própria da tradição cristã.
Um dos aspectos mais marcantes da pintura é a escolha de colocar Lázaro no centro da composição. Em vez de concentrar imediatamente toda a atenção visual em Cristo, Anita apresenta diante do espectador o homem que acaba de ser chamado para fora do túmulo. Jesus aparece à direita, enquanto as demais figuras participam silenciosamente do acontecimento.
O episódio da ressurreição de Lázaro é apresentado no Evangelho de João como um grande sinal da identidade e da missão de Jesus. Na pintura, um detalhe torna essa mensagem especialmente expressiva: Cristo não toca Lázaro. Ele o chama. A vida retorna pela força de sua palavra: “Lázaro, vem para fora!”
Anita representa Lázaro já de pé, mas ainda preso às faixas funerárias. A imagem corresponde à ordem de Jesus: “Desatai-o e deixai-o caminhar.” Dessa maneira, o milagre não termina simplesmente no instante em que Lázaro deixa o túmulo. É necessário também libertá-lo daquilo que ainda o prende. A presença das testemunhas recorda, assim, uma dimensão comunitária: aquele que foi chamado novamente à vida precisa ser ajudado a caminhar em liberdade.
Dentro do Evangelho de João, a ressurreição de Lázaro também aponta para o mistério pascal. Antes de sua própria Páscoa, Cristo manifesta que sua Palavra alcança até mesmo aquele que se encontra no túmulo. A cena torna-se, portanto, um anúncio da vitória da vida sobre a morte.
A obra convida cada pessoa a reconhecer os próprios “túmulos”: o medo, o pecado, a desesperança e tudo aquilo que aprisiona interiormente. Como Lázaro, também somos chamados por Cristo a sair para a vida.
Mas a pintura recorda igualmente que sair do túmulo pode ser apenas o começo. Algumas faixas ainda precisam ser retiradas, e nesse caminho a comunidade tem uma missão. A voz de Cristo continua chamando cada pessoa pelo nome e conduzindo-a da morte para a vida: “Vem para fora!”
THEOPHILUS – Grupo de Estudos Bíblicos Católico
Nesta 57ª semana, a Escritura conduz do fruto à oferta. Jesus caminhou, acolheu, anunciou e chegou a Jerusalém. Ao purificar o Templo, apontou para o essencial: o coração. A verdadeira purificação começou ali — retirando o que ocupava o lugar de Deus para que a vida voltasse a ser oração, encontro e serviço.
Depois da entrada em Jerusalém, já não há espaço para uma presença indiferente. Sua passagem pelo Templo revela aquilo que a cidade tenta esconder: a figueira coberta de folhas, mas sem fruto, torna-se a imagem silenciosa de tudo aquilo que conserva a aparência da vida, mas já não produz aquilo para o qual existe (cf. Mc 11,12–14.20–21).
O que parece vivo precisa dar fruto. E todo fruto nasce da entrega. No átrio do Templo, alguns gregos querem ver Jesus. Mas, diante deles, o Filho do Homem revela que vê-lo é entrar na sua hora, e a hora revela o caminho: o grão precisa cair, morrer e entregar-se para produzir fruto (cf. Jo 12,20–24).
E essa entrega ganha rosto na viúva pobre, que lança no tesouro não o que sobra, mas aquilo de que vive. O olhar encontra, assim, seu destino: sua pequena oferta torna-se imagem daquilo que o próprio Jesus está prestes a realizar (cf. Mc 12,41–44).
A partir daí, o confronto se torna inevitável. Quem purificou o Templo é agora intimado a provar seu direito de agir (cf. Mc 11,27–33; Mt 21,23–27). Posto à prova por questionamentos calculados (cf. Mt 22; Lc 20), Jesus desmonta os laços dos opositores e estabelece a única Verdade que permanece: o mandamento do Amor.
E, diante de um Templo que parece sólido, Jesus olha para além das pedras. Fala de sua destruição, de guerras, perseguições e tempos difíceis, mas não oferece aos discípulos uma data para calcular. Oferece-lhes uma atitude: permanecer atentos e perseverar, porque o Reino não se reconhece pela aparência de segurança, mas pela fidelidade no meio daquilo que passa (cf. Mt 24,1–14.29–31; Mc 13,1–13; Lc 21,5–19).
Por fim, a noite se aproxima. As virgens esperam o esposo; os servos recebem os talentos. Uns precisam conservar o óleo; outros, fazer frutificar o que receberam; porque não basta estar perto, parecer vivo ou ter recebido muito, é preciso que, quando Ele vier, encontre aquilo que procurou desde o início: uma vida entregue (cf. Mt 25,1–30). E o caminho que começou com um Templo purificado termina diante de um coração preparado.
Eis, aí, o Deus da oferta!
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