57º Encontro

At 15-19, Gl 1-6; Tg, 1Ts; 2Ts

11 • outubro • 2026

Visão geral

Os capítulos selecionados de Atos dos Apóstolos (At 15–19) e as cartas aos Gálatas, de São Tiago, Primeira aos Tessalonicenses e Segunda aos Tessalonicenses apresentam uma etapa decisiva da expansão e do amadurecimento da Igreja apostólica. Em Atos, a comunidade cristã enfrenta a questão da acolhida dos gentios, reúne-se em Jerusalém para discernir, amplia a missão de Paulo pela Ásia Menor, Macedônia e Grécia e estabelece importantes comunidades cristãs. As cartas apostólicas, por sua vez, mostram essas comunidades enfrentando questões concretas de fé, vida moral, perseverança, obras, liberdade cristã e esperança na vinda do Senhor.

Na leitura da Igreja Católica, esses textos revelam uma Igreja que cresce sem abandonar sua unidade apostólica. A missão aos gentios não significa ruptura com a história de Israel, mas reconhecimento de que a salvação realizada em Cristo é oferecida a todos. Paulo insiste que a justificação é dom da graça recebido pela fé e não resultado das obras da Lei mosaica; Tiago recorda que a fé verdadeira deve tornar-se operante em obras de caridade; e as cartas aos Tessalonicenses ensinam a esperar a vinda de Cristo com esperança, santidade e responsabilidade. Assim, fé, graça, obras, comunhão e esperança aparecem como dimensões inseparáveis da vida cristã.

Dados essenciais

  • Livros: Atos dos Apóstolos, Gálatas, Tiago, 1 Tessalonicenses e 2 Tessalonicenses.

  • Trechos estudados: At 15–19; Gl 1–6; Tg 1–5; 1Ts 1–5; 2Ts 1–3.

  • Coleção: Novo Testamento – Livro Histórico e Cartas Apostólicas.

  • Contexto: expansão missionária da Igreja nas primeiras décadas após a Ressurreição de Cristo.

  • Cenário: Jerusalém, Antioquia, Ásia Menor, Filipos, Tessalônica, Bereia, Atenas, Corinto e Éfeso.

  • Personagens principais: Pedro, Tiago, Paulo, Barnabé, Silas, Timóteo, Lídia, Áquila, Priscila, Apolo e as primeiras comunidades cristãs.

Megatemas (palavras-chave)
Graça; fé; obras; Lei; liberdade cristã; Espírito Santo; missão; gentios; comunhão; discernimento; caridade; perseverança; santidade; ressurreição; vinda de Cristo; esperança.


Atos dos Apóstolos 15–19

Atos 15–19 acompanha a expansão da Igreja depois da primeira grande missão de Paulo e Barnabé. O período começa com uma questão decisiva: os gentios que se convertem a Cristo precisam assumir integralmente as prescrições da Lei de Moisés para serem salvos? A controvérsia conduz os Apóstolos e presbíteros a Jerusalém, onde a Igreja discerne comunitariamente a questão. Depois dessa decisão, Paulo inicia novas viagens missionárias que levam o Evangelho à Macedônia, Grécia e importantes cidades do mundo greco-romano.

Na tradição católica, esses capítulos possuem grande importância para compreender o discernimento e a autoridade apostólica da Igreja. A comunidade não resolve a crise simplesmente por decisões individuais, mas reúne seus responsáveis, escuta testemunhos, considera as Escrituras e chega a uma decisão expressa pela fórmula: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15,28). Essa comunhão entre ação do Espírito, autoridade apostólica e discernimento eclesial torna-se uma referência permanente para a vida da Igreja.

I) O Concílio de Jerusalém (At 15)
  • Questão dos gentios: alguns cristãos provenientes do judaísmo defendem que os convertidos deveriam ser circuncidados e observar a Lei mosaica para alcançar a salvação.

  • Paulo e Barnabé: levam a controvérsia aos Apóstolos e presbíteros de Jerusalém.

  • Testemunho de Pedro: recorda que Deus concedeu o Espírito Santo também aos gentios e purificou seus corações pela fé.

  • Graça de Cristo: Pedro afirma que judeus e gentios são salvos pela graça do Senhor Jesus.

  • Testemunho missionário: Paulo e Barnabé relatam os sinais realizados por Deus entre os povos.

  • Tiago: intervém no discernimento e relaciona a missão aos gentios com o testemunho das Escrituras.

  • Decisão apostólica: os gentios não são obrigados a assumir toda a Lei mosaica, embora recebam orientações destinadas à comunhão e à fidelidade cristã.

  • “Espírito Santo e nós”: a decisão manifesta a consciência de que o Espírito conduz o discernimento da Igreja.

II) Segunda viagem missionária de Paulo (At 16–18)
  • Timóteo: passa a acompanhar Paulo e torna-se um de seus principais colaboradores.

  • Orientação do Espírito: os missionários são conduzidos até a Macedônia, mostrando que a missão depende do discernimento da vontade divina.

  • Lídia: em Filipos, acolhe a pregação, recebe o Batismo com sua casa e abre seu lar à missão.

  • Prisão em Filipos: Paulo e Silas são presos, mas permanecem em oração e louvor.

  • Carcereiro: depois de acontecimentos extraordinários, pergunta o que deve fazer para ser salvo e é conduzido à fé e ao Batismo com sua família.

  • Tessalônica: Paulo anuncia pelas Escrituras que o Messias deveria sofrer e ressuscitar e proclama Jesus como o Cristo.

  • Bereia: os ouvintes recebem a Palavra e examinam as Escrituras para verificar o anúncio apostólico.

  • Atenas: no Areópago, Paulo parte da religiosidade dos ouvintes para anunciar o Deus criador, a conversão, o julgamento e a Ressurreição de Jesus.

  • Corinto: Paulo permanece por longo período, trabalha com Áquila e Priscila e funda uma importante comunidade cristã.

  • Apolo: pregador eloquente e conhecedor das Escrituras, recebe instrução mais completa de Priscila e Áquila.

III) Éfeso e a expansão da Palavra (At 19)
  • Discípulos em Éfeso: Paulo encontra homens que conheciam apenas o batismo de João e lhes anuncia plenamente Jesus.

  • Batismo e imposição das mãos: depois do Batismo em nome de Jesus, Paulo impõe-lhes as mãos e eles recebem o Espírito Santo.

  • Pregação prolongada: Éfeso torna-se importante centro missionário, de onde a Palavra se difunde por toda a região.

  • Poder do nome de Jesus: o episódio dos filhos de Ceva mostra que o nome de Cristo não pode ser tratado como fórmula mágica.

  • Conversão concreta: antigos praticantes de magia abandonam publicamente suas práticas.

  • Conflito com os interesses econômicos: a pregação cristã ameaça o comércio ligado ao culto de Ártemis, provocando forte tumulto na cidade.


Carta aos Gálatas

A Carta aos Gálatas nasce de uma crise pastoral. Depois da evangelização realizada por Paulo, alguns ensinavam que os cristãos provenientes do paganismo precisavam assumir práticas da Lei mosaica, especialmente a circuncisão. Paulo reage com firmeza, defendendo que a salvação é dom de Deus realizado em Jesus Cristo e acolhido pela fé, e não resultado da submissão às obras características da antiga Lei.

Na leitura da Igreja Católica, Gálatas não estabelece oposição entre fé e vida moral nem ensina uma fé estéril separada da caridade. Paulo combate a ideia de que as observâncias da Lei mosaica possam salvar por si mesmas. A mesma carta declara que aquilo que realmente importa é a “fé que age pela caridade” (Gl 5,6). A graça precede e torna possível a resposta humana, e a liberdade cristã deve produzir frutos concretos sob a ação do Espírito Santo.

I) O Evangelho recebido de Cristo (Gl 1–2)
  • Um só Evangelho: Paulo rejeita qualquer ensinamento que altere a Boa-Nova recebida de Cristo.

  • Vocação de Paulo: recorda sua antiga perseguição à Igreja e o chamado recebido pela graça de Deus.

  • Comunhão apostólica: Paulo apresenta sua missão aos responsáveis da Igreja em Jerusalém e recebe reconhecimento de sua missão entre os gentios.

  • Pedro e Paulo em Antioquia: Paulo relata uma correção feita a Pedro em uma situação concreta relacionada à convivência entre judeus e gentios.

  • Justificação: a vida nova não procede das obras da Lei mosaica, mas da graça recebida pela fé em Jesus Cristo.

  • “Cristo vive em mim”: a vida cristã é descrita como participação profunda na vida do Filho de Deus.

II) Fé, promessa e filiação (Gl 3–4)
  • Abraão: Paulo recorda que Abraão acreditou em Deus antes da entrega da Lei no Sinai.

  • Promessa e Lei: a Lei possui uma função dentro da história da salvação, mas não anula a promessa feita por Deus.

  • Unidade em Cristo: pelo Batismo, distinções étnicas e sociais não podem ser usadas para negar a dignidade comum dos que pertencem a Cristo.

  • Filhos de Deus: em Cristo, os fiéis recebem a adoção filial.

  • Espírito do Filho: Deus envia aos corações o Espírito que clama “Abbá, Pai”.

III) Liberdade e vida segundo o Espírito (Gl 5–6)
  • Liberdade cristã: Cristo liberta para uma vida nova, não para o retorno à escravidão nem para uma existência dominada pelo pecado.

  • Fé que age pela caridade: a verdadeira fé cristã torna-se ativa no amor.

  • Amor ao próximo: toda a Lei encontra cumprimento no mandamento de amar o próximo.

  • Carne e Espírito: Paulo contrapõe a vida dominada pelas paixões desordenadas à vida conduzida pelo Espírito Santo.

  • Fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si manifestam a ação do Espírito na vida cristã.

  • Carregar os fardos: os cristãos devem sustentar uns aos outros e corrigir com espírito de mansidão.

  • Semear no Espírito: as escolhas realizadas durante a vida possuem consequências espirituais.

  • Cruz de Cristo: Paulo rejeita qualquer glória fundada em privilégios humanos e coloca sua única glória na Cruz do Senhor.


Carta de São Tiago

A Carta de São Tiago apresenta uma catequese profundamente prática sobre a vida cristã. Tradicionalmente associada a Tiago, importante liderança da Igreja de Jerusalém, a carta dirige-se às comunidades cristãs e insiste que a fé deve transformar concretamente a maneira de falar, tratar os pobres, enfrentar as provações, rezar e relacionar-se com os outros.

Na tradição católica, Tiago possui importância especial por ensinar claramente que a fé sem obras é morta. Isso não contradiz Paulo: enquanto Paulo rejeita a tentativa de obter a salvação pelas obras da Lei mosaica, Tiago combate uma fé meramente verbal que não produz frutos de caridade. A graça de Deus deve ser acolhida por uma fé viva que coopera com ela e se manifesta em obras.

I) Provação, Palavra e prática da fé (Tg 1)
  • Perseverança: as provações podem tornar-se ocasião de amadurecimento quando enfrentadas com fé.

  • Sabedoria: quem necessita deve pedi-la a Deus com confiança.

  • Origem da tentação: Deus não conduz ao pecado; a desordem nasce dos desejos humanos quando consentidos.

  • Dom de Deus: todo dom bom procede do Pai.

  • Praticantes da Palavra: não basta escutar a Palavra; é necessário colocá-la em prática.

  • Religião pura: inclui cuidar dos órfãos e das viúvas e conservar-se livre da corrupção do mundo.

II) Fé e obras (Tg 2)
  • Parcialidade: a comunidade não deve favorecer os ricos nem desprezar os pobres.

  • Lei régia: amar o próximo como a si mesmo constitui princípio fundamental da vida cristã.

  • Fé sem obras: uma profissão de fé que não socorre concretamente o necessitado é estéril.

  • Abraão: sua fé torna-se visível e madura em sua obediência.

  • Cooperação: fé e obras não são apresentadas como rivais, mas como dimensões que se manifestam juntas na vida do justo.

III) Palavra, sabedoria e conflitos (Tg 3–4)
  • A língua: as palavras possuem grande poder e podem edificar ou destruir.

  • Sabedoria do alto: manifesta-se na pureza, paz, mansidão, misericórdia e bons frutos.

  • Origem das divisões: conflitos externos frequentemente refletem paixões desordenadas no interior do coração.

  • Humildade: aproximar-se de Deus exige reconhecer a própria dependência e abandonar a soberba.

  • Providência: o cristão não deve planejar a vida como se fosse senhor absoluto do futuro, mas confiar na vontade de Deus.

IV) Justiça, sofrimento e oração (Tg 5)
  • Advertência aos ricos injustos: Tiago denuncia a exploração dos trabalhadores e o acúmulo egoísta.

  • Paciência: os cristãos devem perseverar enquanto aguardam a vinda do Senhor.

  • Oração na enfermidade: os presbíteros devem ser chamados para rezar sobre o enfermo e ungi-lo com óleo em nome do Senhor.

  • Unção dos Enfermos: na tradição católica, Tg 5,14-15 constitui um importante fundamento bíblico deste sacramento.

  • Confissão e oração: a comunidade é chamada à reconciliação e à intercessão mútua.

  • Resgatar o irmão: conduzir de volta alguém que se desviou participa da obra de misericórdia e salvação.


Primeira Carta aos Tessalonicenses

A Primeira Carta aos Tessalonicenses é geralmente considerada uma das primeiras cartas de São Paulo e reflete a profunda afeição do Apóstolo por uma comunidade jovem que enfrentava perseguições. Paulo agradece pela fé, esperança e caridade dos tessalonicenses, recorda sua missão entre eles e os encoraja a crescer na santidade.

Um dos principais temas da carta é a vinda do Senhor. Alguns cristãos estavam preocupados com aqueles que haviam morrido antes da volta de Cristo. Paulo responde com esperança: os mortos em Cristo não estão perdidos; participarão da Ressurreição. A espera cristã, porém, não deve produzir medo nem especulação, mas vigilância, sobriedade, caridade e fidelidade cotidiana.

I) Fé, esperança e caridade (1Ts 1–3)
  • Comunidade exemplar: Paulo agradece pela fé operante, pela caridade esforçada e pela esperança perseverante dos cristãos.

  • Conversão: os tessalonicenses abandonaram os ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro.

  • Ministério de Paulo: o Apóstolo recorda que anunciou o Evangelho sem procurar prestígio ou vantagem pessoal.

  • Paternidade espiritual: Paulo descreve seu cuidado pela comunidade com imagens de profundo afeto pastoral.

  • Timóteo: é enviado para fortalecer a fé dos cristãos diante das tribulações.

II) Santidade e vida fraterna (1Ts 4)
  • Vontade de Deus: Paulo identifica a santificação como vocação de todo cristão.

  • Pureza: a sexualidade deve ser vivida segundo a santidade e o respeito, e não dominada pelas paixões.

  • Caridade fraterna: os cristãos são chamados a crescer cada vez mais no amor.

  • Trabalho: Paulo incentiva uma vida responsável e laboriosa.

  • Esperança pelos mortos: os cristãos não devem entristecer-se como aqueles que não possuem esperança.

  • Ressurreição: porque Jesus morreu e ressuscitou, aqueles que morreram unidos a Ele também participarão de sua vitória.

III) Vigilância na espera do Senhor (1Ts 5)
  • Dia do Senhor: sua chegada não pode ser reduzida a cálculos humanos.

  • Filhos da luz: o cristão deve viver vigilante, sóbrio e preparado.

  • Fé, caridade e esperança: são apresentadas como armas espirituais para a perseverança.

  • Vida comunitária: Paulo recomenda respeito pelos responsáveis, paciência, ajuda aos fracos e busca constante do bem.

  • Oração constante: “Orai sem cessar” resume a atitude espiritual de uma vida aberta à presença de Deus.

  • Discernimento: não se deve apagar o Espírito, mas tudo deve ser examinado, conservando-se aquilo que é bom.


Segunda Carta aos Tessalonicenses

A Segunda Carta aos Tessalonicenses retoma a esperança na vinda de Cristo e procura corrigir interpretações equivocadas segundo as quais o Dia do Senhor já estaria acontecendo de forma iminente. A carta pede serenidade, fidelidade à tradição recebida e perseverança em meio às perseguições.

Na leitura católica, 2 Tessalonicenses recorda que a escatologia cristã não deve ser transformada em tentativa de prever datas ou identificar precipitadamente acontecimentos contemporâneos com os sinais do fim. A Igreja vive na esperança da vinda de Cristo, mas continua exercendo sua missão, trabalhando, rezando, praticando o bem e permanecendo fiel ao ensinamento apostólico.

I) Perseverança nas perseguições (2Ts 1)
  • Fé crescente: Paulo agradece pelo amadurecimento da fé e da caridade dos tessalonicenses.

  • Perseverança: a fidelidade da comunidade em meio às perseguições é motivo de consolação.

  • Justiça de Deus: a história caminha para a manifestação definitiva da justiça divina.

  • Glória de Cristo: a esperança cristã está orientada para a revelação do Senhor.

II) O Dia do Senhor e o mistério da iniquidade (2Ts 2)
  • Evitar alarmismo: a comunidade não deve se deixar perturbar por afirmações de que o Dia do Senhor já chegou.

  • Apostasia e iniquidade: Paulo menciona acontecimentos que precederão a manifestação definitiva de Cristo, usando linguagem de caráter apocalíptico.

  • Fidelidade: os cristãos devem permanecer firmes e conservar as tradições recebidas pelo ensinamento apostólico.

  • Vitória de Cristo: nenhum poder do mal é definitivo; o Senhor terá a palavra final.

III) Trabalho, disciplina e perseverança (2Ts 3)
  • Oração pela missão: Paulo pede que a Palavra do Senhor continue difundindo-se rapidamente.

  • Trabalho responsável: a expectativa da vinda de Cristo não justifica o abandono dos deveres cotidianos.

  • “Quem não quer trabalhar, também não coma”: a advertência dirige-se àqueles que voluntariamente abandonam suas responsabilidades e vivem às custas da comunidade.

  • Não se cansar de fazer o bem: a perseverança cristã deve continuar mesmo diante das dificuldades e desordens comunitárias.

  • Correção fraterna: aquele que se desvia deve ser advertido como irmão, não tratado como inimigo.


Graça, fé e obras

Gálatas e Tiago permitem compreender de forma particularmente rica a relação entre graça, fé e obras. Paulo ensina que ninguém obtém a salvação como recompensa por cumprir as obras da Lei mosaica. A justificação nasce da iniciativa gratuita de Deus e é acolhida pela fé em Jesus Cristo. A salvação é, portanto, dom antes de ser conquista humana.

Tiago enfrenta outro problema: uma pessoa pode afirmar que possui fé e, ao mesmo tempo, não demonstrar misericórdia, justiça ou caridade. Sua resposta é clara: “a fé sem obras é morta”. Na leitura católica, Paulo e Tiago são complementares: somos salvos pela graça de Deus, recebida na fé, e essa fé viva coopera com a graça e produz necessariamente frutos de amor.


O Concílio de Jerusalém e o discernimento da Igreja

Atos 15 apresenta um modelo fundamental de discernimento eclesial. Diante de uma controvérsia que poderia dividir a Igreja, os Apóstolos e presbíteros reúnem-se para escutar, discutir e discernir. Pedro testemunha aquilo que Deus fez entre os gentios; Paulo e Barnabé relatam sua experiência missionária; Tiago ilumina a questão pelas Escrituras; e a decisão é comunicada às comunidades.

A expressão “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” manifesta uma convicção central da Igreja apostólica: o Espírito Santo age na comunhão visível da Igreja e guia seus pastores no discernimento. A unidade não significa ausência de debates, mas capacidade de buscar juntos a verdade e permanecer em comunhão.


A vida segundo o Espírito

Gálatas apresenta uma das mais importantes descrições da espiritualidade cristã. A liberdade recebida em Cristo não significa autonomia absoluta nem licença para o pecado. O cristão é chamado a caminhar segundo o Espírito e a permitir que a graça transforme seus desejos, relações e escolhas.

O fruto do Espírito mostra como essa transformação se torna visível: amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si. Esses frutos não são simples qualidades humanas conquistadas isoladamente, mas sinais da ação do Espírito acolhida e correspondida pelo discípulo.


Tiago e a fé vivida

A Carta de Tiago insiste repetidamente na distância que pode existir entre ouvir e praticar. É possível conhecer a Palavra, professar a fé e utilizar linguagem religiosa sem permitir que o Evangelho transforme a vida. Por isso, Tiago examina situações concretas: tratamento dos pobres, uso da língua, conflitos, riquezas, oração, sofrimento e cuidado com os enfermos.

Sua espiritualidade é profundamente prática: a sabedoria cristã aparece na mansidão, na justiça, na misericórdia e na paz. A verdadeira religião não se limita à palavra pronunciada, mas se torna visível no cuidado com aqueles que sofrem e na coerência da vida.


A esperança na Ressurreição e na vinda de Cristo

As cartas aos Tessalonicenses oferecem uma das primeiras formulações do Novo Testamento sobre a esperança cristã diante da morte. Paulo consola os fiéis lembrando que a Ressurreição de Jesus é fundamento da esperança daqueles que morreram unidos a Ele. A morte não rompe definitivamente a comunhão com Cristo.

A expectativa da vinda gloriosa do Senhor não deve produzir especulações ou abandono das responsabilidades. 1 e 2 Tessalonicenses insistem na vigilância, na oração, na santidade, no trabalho e na prática do bem. O cristão espera o futuro de Deus vivendo fielmente o presente.


Leitura cristológica e espiritual

  • Jesus, fonte da graça: a salvação não é conquistada pela observância exterior da Lei, mas recebida como dom realizado em Cristo.

  • Jesus crucificado: Paulo coloca a Cruz no centro de sua identidade e de sua pregação.

  • Jesus Ressuscitado: sua vitória é fundamento da esperança dos cristãos diante da morte.

  • Jesus que virá: a Igreja vive voltada para a manifestação definitiva do Senhor, sem abandonar sua missão no presente.

  • Fé viva: a fé verdadeira acolhe a graça e torna-se operante pela caridade.

  • Liberdade: Cristo liberta do pecado e da pretensão de autossalvação para uma existência conduzida pelo Espírito.

  • Obras de misericórdia: Tiago recorda que a fé se torna visível no cuidado concreto com o próximo.

  • Esperança: a morte não possui a palavra final, pois os que pertencem a Cristo participarão de sua Ressurreição.

  • Perseverança: perseguições, dificuldades e espera não dispensam o cristão de continuar fazendo o bem.


Como ler com o Theophilus

  • Leitura histórico-salvífica: acompanhar em Atos como a missão passa de uma realidade predominantemente judaica para uma Igreja cada vez mais universal.

  • Leitura eclesial: observar no Concílio de Jerusalém o papel dos Apóstolos, presbíteros, Escrituras, testemunho missionário e Espírito Santo no discernimento da Igreja.

  • Leitura paulina: compreender que a crítica às “obras da Lei” em Gálatas não significa rejeição das boas obras, mas negação de que a Lei mosaica possa substituir a graça de Cristo.

  • Leitura moral: aprofundar Tiago e Gálatas como complementares na apresentação de uma fé que deve tornar-se caridade, serviço e vida segundo o Espírito.

  • Leitura sacramental: observar em Atos a presença do Batismo e da imposição das mãos e, em Tiago, a oração e unção dos enfermos pelos presbíteros.

  • Leitura escatológica: interpretar 1 e 2 Tessalonicenses como chamado à esperança e à vigilância, evitando cálculos e previsões sobre datas do fim.

  • Leitura espiritual: perguntar se a fé está produzindo frutos concretos de amor, paciência, oração, responsabilidade e perseverança.


Para aprofundar no encontro

  • Leituras da semana: At 15–19; Gl 1–6; Tg 1–5; 1Ts 1–5; 2Ts 1–3.

  • Materiais: Concílio de Jerusalém; viagens missionárias de Paulo; Areópago de Atenas; missão em Éfeso; relação entre fé, graça e obras; frutos do Espírito; unção dos enfermos em Tiago; Ressurreição e vinda do Senhor nas cartas aos Tessalonicenses; Catecismo da Igreja Católica sobre a justificação, a graça, a fé, as boas obras, os dons e frutos do Espírito, o sacramento da Unção dos Enfermos, a Ressurreição e a segunda vinda de Cristo.

  • Objetivo: compreender como a Igreja apostólica, guiada pelo Espírito Santo, discerniu a acolhida dos gentios e expandiu a missão do Evangelho, enquanto as cartas de Paulo e Tiago aprofundaram a vida cristã como resposta à graça: uma fé viva que age pela caridade, produz os frutos do Espírito, persevera nas provações e aguarda com esperança e responsabilidade a vinda gloriosa de Jesus Cristo.

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Exemplo: Encontro de Domingo - Gênesis 38-50
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